sábado, 15 de dezembro de 2012

Cada passo é o meu lar

Moriyama Roshi


"Viajando nesse reino de ilusões,
Sem procurar pelos traços que posso ter deixado;
O canto do cuco me chama para voltar para casa;
Ao ouvi-lo, inclino minha cabeça para ver
Quem me disse para voltar;
Mas não me pergunte aonde estou indo,
Enquanto viajo nesse mundo ilimitado,
Onde cada passo que dou é o meu lar."

(Dōgen Zenji)



Traduzido do livro "The Zen Poetry of Dogen: Verses from the Mountain of Eternal Peace", compilação de Steven Heine.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Verso das cinco reflexões (Gokan no ge)

oryoki

Primeiro, refletimos sobre o esforço que nos trouxe esta comida e consideramos como chega até nós.
Segundo, refletimos sobre a nossa virtude e prática e se somos dignos de receber isto.
Terceiro, reconhecemos que a ganância é um obstáculo para a libertação.
Quarto, consideramos esta refeição como um remédio para manter as nossas vidas.
Quinto, para alcançarmos a Iluminação, agora recebemos esta comida.

domingo, 2 de setembro de 2012

Delusões são inexauríveis, faço voto de extingui-las


Sentar-se do começo ao fim de um sesshin é estar no meio de um fogo de refinaria. Eido Roshi certa vez revelou: "Este zendo não é um céu de beatitude e, sim, uma fornalha para a combustão de nossas delusões egoístas". O zendo não é um lugar para estados de graça e relaxamento; é uma sala de queima e combustão de nossas delusões egoístas. Que instrumentos precisamos utilizar? Só um. Todos já ouviram falar dele, mas empregam-no muito pouco. Chama-se atenção.

A atenção é a espada afiada e escaldante, e nossa prática refere-se a usá-la tanto quanto pudermos. Ninguém está muito disposto a empregá-la, mas, quando o fazemos – mesmo que seja por poucos minutos – acontecem um certo cortar e um certo queimar. Toda prática tem por meta aumentar nossa capacidade de prestar atenção, não só no zazen como em todos os instantes de nossa vida. Ao praticar o sentar, percebemos que nosso processo de pensamentos conceituais é uma fantasia, e, quanto mais o absorvemos, mais aumentará nossa capacidade de prestar atenção à realidade.

[...]

Quando o fogo do fogareiro é trabalhado, e você quer obter chamas brilhantes e vivas, o que faz? Aumenta a entrada de ar. Somos também como o fogo, e, quando a mente se aquieta, podemos respirar mais fundo: a entrada de oxigênio aumenta. Nossa combustão produzirá uma chama mais clara e limpa, e nossas ações transpiram essa qualidade. Em vez de tentarmos resolver na mente que espécie de ação executar, precisamos apenas purificar nossos alicerces, e a ação fluirá daí. A mente aquieta-se, porque a observamos em vez de ficarmos perdidos dentro dela. A respiração, então, se aprofunda e, quando de fato o fogo pegar, não haverá nada para ser consumido. Quando esquentar o suficiente, não haverá eu, porque, então, o fogo estará consumindo tudo; e não há separação entre eu e o outro.

Extraído do livro "Sempre Zen", de Charlotte Joko Beck.

domingo, 5 de agosto de 2012

O monge é um pássaro que voa muito rápido

brush drawing by Thomas Merton, "Untitled"

"O monge é um pássaro que voa muito rápido sem saber aonde está indo. E sempre chega onde ele foi, em paz, sem saber de onde veio." (Thomas Merton)

Traduzido do blog louie, louie.

sábado, 30 de junho de 2012

Mushotoku



Mushotoku significa: não proveito, não desejo de adquirir (mu = negação, shotoku = proveito).
Shikan significa tal como mushotoku: sem objectivo, sem proveito.
Um dos princípios mais importantes do Mestre Dogen é que não se deve nem desejar adquirir, nem dar com a ideia de receber. Mushotoku é o princípio essencial. Está concretizado em shikantaza: a arte de se sentar sem objectivo (posição do Buda) é disso significante.
Quando o homem age ou dá quer receber compensação, mas o zen é a filosofia do não proveito.
Em zazen, o discípulo deve tentar obter “o mais elevado de si” com um perfeito desinteresse. Se há desejo de atingir um objectivo, esse objectivo falha. O puro torna-se impuro.
Do mesmo modo, em toda a obra de arte, toda a criação, o artista deve dar-se por inteiro, sem se ocupar em atingir a glória, a beleza, a riqueza e sem se sacrificar a modas. Deve exprimir-se no seu melhor, sem compromisso. Então a obra poderá ser bela, pura, humana.
Acontece o mesmo na procura da sabedoria. O discípulo não deve desejar a sabedoria nem a felicidade. Mas obterá a sabedoria se dia após dia procurar conhecer-se, ultrapassar-se, dar-se, sem esperar nenhum proveito pessoal. Se obtém a gratuidade dos seus atos, a felicidade vem por acréscimo.
Todo o apego, qualquer que seja a sua natureza, aliena a liberdade humana.
Quebrar os laços, os hábitos, amar sem apego, agir sem objectivo pessoal.
Manter as mãos abertas, dar, abandonar todas as coisas sem medo de perder, nunca procurar adquirir, essa é a disciplina do adepto zen.
A verdade reside na simplicidade.
Atentos, viremos o nosso olhar para o interior, o lado nocturno do ser, a nossa noite humana. A aurora levantar-se-á. O mundo da experiência existe só no nosso espírito.
A paz, o desapego, serão a prova da eficácia da nossa procura.
A nossa vida não se torna, assim, nem pequena, nem estreita, nem solitária.
O nosso corpo e o universal são unos.
O nosso ego e o universal são unos.
O satori, nirvana, é a liberdade.
O satori exige o dom total de si.
O satori exige o total desapego de interesses privados, espirituais e materiais.
O satori exige o amor perfeito.
A comunicabilidade é fonte de amor, de força, de alegria.
Mestre Dogen diz: “Mantenham as mãos abertas; toda a areia do deserto passará através delas. Fechem as mãos; obtereis alguns grãos de areia.”
Sejam vigilantes, disponíveis a todo o instante, afinem a vossa atenção como a espada mais afiada. Só então estareis na Via.

Extraído do livro “Verdadeiro Zen”, de Taisen Deshimaru.